Novo Museu de Arte do Rio é uma aula de carioquice
- Uma das mostras, “Rio de imagens”, traz mais de 400 peças
RIO DE JANEIRO — ÓTIMA OPÇÃO
Pode-se dizer que o Museu de Arte Carioca (MAR) reverencia a alma da cidade. Longe de se ater ao passado, o primeiro ícone da revitalização da Zona Portuária aponta novos olhares e perspectivas sobre o Rio. Vizinho do Morro da Conceição, do Cais do Valongo, da Pedra do Sal e do Cemitério dos Pretos Novos, o MAR olha adiante e também destaca a arte brasileira e a mundial. A viagem pelo museu da Praça Mauá, que começa pelo terraço da Escola do Olhar, leva a uma percepção diferente sobre algo que sempre esteve no mesmo lugar. Depois de atravessar a passarela que une os dois prédios da instituição, chega-se ao quarto andar do edifício eclético que abriga o Pavilhão de Exposições. A mostra “Rio de imagens — uma paisagem em construção”, que vai até 28 de julho, é uma aula de carioquice, sem obedecer a nenhuma ordem cronológica. Logo na entrada, cartazes publicitários e cartões-postais do Rio dos anos 30 e 40. Depois vêm as pinturas feitas por artistas viajantes do século XIX.
— Vista da cobertura, a paisagem do entorno já faz parte do conteúdo do museu. Por isso, levamos o visitante a desfrutá-la, tendo aos olhos a Baía de Guanabara, o Mosteiro de São Bento, a base da miscigenação carioca. A proposta é que o terceiro andar, que é o primeiro acessado pelos visitantes, seja permanentemente dedicado à cidade, desvendada a partir de diferentes enfoques. O Rio será sempre ponto de partida, sob a perspectiva de novos olhares sobre a cidade, em diferentes momentos — diz Hugo Barreto, diretor geral da Fundação Roberto Marinho, que é parceira da prefeitura do Rio na construção do MAR.
Para dar a oportunidade rara de ver, num só lugar, como se formou a identidade cultural e arquitetônica da cidade, os curadores Carlos Martins e Rafael Cardoso lançaram mão de mais de 400 peças. Eles reuniram pinturas, desenhos, cartazes, mapas, fotografias e até suvenires para mostrar as transformações pelas quais o Rio de Janeiro passou até se tornar o que é hoje. As fachadas da Avenida Central registradas pelo fotógrafo Marc Ferrez no fim do século XIX levam a um passeio virtual. Martins explica:
— Marc editou um livro em homenagem à abertura da Avenida Central. Essas fotografias foram colorizadas e postas tridimensionalmente, com profundidade e perspectiva, para conseguir uma volumetria dos quarteirões e dar ao visitante a sensação de estar andando pela Avenida Central na época em que foi inaugurada. Usamos fotos de 12 fachadas, mas nenhuma continua de pé. Para a exposição, fizemos uma seleção que vai do início do século XIX até os dias de hoje, sendo a maioria das peças oriunda de coleções particulares, o que torna ainda mais especial a oportunidade de vê-las reunidas.
A maquete original do Theatro Municipal, de 1905, em madeira e gesso também está lá. Outra peça que chama a atenção — emprestada pelo Museu da Cidade — é um dos estudos feitos para a cabeça do Cristo Redentor, feito de terracota e cimento pelo escultor francês de origem polonesa Paul Landowski. Paisagens conhecidas e outras desaparecidas do Rio aparecem nos vasos do do artista francês Émile Gallé, um dos expoentes da Art Nouveau.
Entre os registros contemporâneos está “Menina na laje”, foto de Claudia Jaguaribe, publicada no livro “Entre morros”, lançado ano passado. A imagem mostra uma criança subindo numa caixa d’água, com a Rocinha a seus pés e o Dois Irmãos ao fundo. Para fechar a visitação desta exposição, há uma vídeo instalação de André Weller, com imagens de fogos, oferendas e flores projetadas simultaneamente em três paredes de uma sala escura. Neste pequeno espaço, o visitante tem uma imersão visual e sonora no réveillon do Rio.
Mais três exposições temporárias estão em cartaz no prédio eclético do antigo Palacete Dom João VI. No segundo andar, pode ser visto o precioso acervo guardado por Jean Boghici na exposição “O colecionador”, que reúne cerca de 150 obras de uma centena de artistas até 1º de setembro. Reúne as artes plásticas dos últimos dois séculos. Já “Vontade construtiva na coleção Fadel” ocupa o primeiro andar do pavilhão de exposições até 7 de julho. A mostra conta com cerca de 250 obras da coleção do advogado carioca Sergio Fadel e ressalta a relação que os movimentos modernos e pós-modernos no Brasil tiveram, e ainda têm, como alicerces para a edificação cultural do Rio e do resto do país. A curadoria é assinada por Paulo Herkenhoff, também diretor cultural do MAR.
As duas salas do térreo serão sempre dedicadas à arte contemporânea. Até 14 de julho, estarão ocupadas pela mostra “O abrigo e o terreno – arte e sociedade no Brasil I”. A coletânea exibe peças assinadas por artistas e coletivos do Rio e de outros estados brasileiros, concentrando sua atenção na ocupação do espaço público e na dinâmica da sociabilidade.
O museu só abre as portas para o público em geral na terça-feira. A entrada inteira custa R$ 8. Às terças, o ingresso é gratuito. O museu funcionará de terça a domingo, das 10h às 17h. Site:http://www.museumar.com/.

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